Delivery

Elas ficaram amigas na empresa.

Entre um café e outro a mais velha desabafava sobre um cara mala que não saía do seu pé, e que ela sabia que ele só queria marcar pontos, mas ainda assim, uma vez ou outra, ela não conseguia resistir e que depois ela se arrependia por ter que encontrá-lo no dia seguinte.  A mais nova ouvia e quase não respondia nada, ficava alí apenas de ouvidos abertos e olhos compreensivos.

E foi em outro café, enquanto a mais velha estava dizendo o quanto despresava o mala e como ela queria que ele largasse do pé dela, que a mais nova interrompeu a sessão terapêutica para pedir um favor. Precisava de uma carona no final de semana para ir a uma festa, que um cara parecia interessado nela e que ela estava interessada nele, e antes que ela dissesse mais nada a mais velha respondeu logo que sim e correu para uma reunião atrasada.

No dia da carona a mais velha chegou na casa da mais nova muito curiosa para saber quem era o interessado, mas a mais nova fez mistério e foi logo dizendo o caminho da festa para a motorista da vez.

Durante o percurso a mais velha cantava músicas antigas enquanto a mais nova dava as instruções, até que a mais nova apontou a casa e a cantoria foi interrompida por uma freada brusca e um olhar de espanto da mais velha, a casa do interessado era a casa do mala.

Resta 1

Ela andava sem paciência. Tinha sido dispensada pelo namorado de anos, estava um pouco tonta com o novo trabalho, e ainda precisava encontrar um apartamento para morar.

Com tanta coisa na cabeça ela precisava se distrair. Deu uns sorrisos aqui, outros alí e um cara já estava sorrindo um pouco mais para ela pelos corredores do escritório.

Como ela tinha muito em que pensar, precisava fazer mais coisas para se livrar daqueles pensamentos, e por isso ela aceitou o convite do homem sorriso para sair. Ela estava animada com o encontro, esperava que novos pensamentos fizessem com que ela parasse de pensar em tudo aquilo que ela estava pensando sem parar.

Ela chegou primeiro e continuava animada. Ele chegou atrasado e fez pouco caso dela, dos pensamentos dela, da animação dela. Mas ela andava sem paciência, ela precisava pensar em coisas novas. E naquele exato momento ela parou de pensar, esqueceu-se dele e de tudo, atravessou a pista, sorriu ao acaso, e beijou o primeiro que retribuiu seus pensamentos.

Quase!

Ele estava tentando um novo estilo, mais comportado, menos irresponsável. Já não passava dos limites nas festinhas e nem dava em cima das meninas novas do escritório. O plano corria bem, ele não aprontou nada durante várias semanas, não foi o centro das últimas fofocas e estava começando a acreditar que dessa vez estava fazendo tudo certo.

E nesse momento de calmaria, ele foi convidado para passar o final de semana na casa da praia de uma colega. Ele aceitou sem duvidar, mas chegando lá viu que as coisas poderiam ficar um pouco mais animadas do que ele pensava, muita gente conhecida e muita, muita bebida disponível.

Lá pelo fim da tarde e da garrafa de vodka, uma amiga apontou com as sobrancelhas para uma garota que ele já tinha visto no escritório, e que parecia interessadíssima em conhecer ele melhor. Ele sorriu mas não se interessou, estava tranquilo.

Quando o chão começou a se mover mais rápido que seus pensamentos, ele achou que era hora de dormir e foi para o quarto, e deu de cara com a interessada esperando na porta.

No dia seguinte ele ouviu um dos amigos com quem estava dividindo o quarto reclamar dele, dizendo que ele falava dormindo e que mal conseguiu descansar. Ele sorriu aliviado e pensou em agradecer ao criador do whisky, que deixou seu amigo tão bêbado a ponto de não perceber a interessadinha, que estava escondia entre os lençóis da cama dele.

Paparazzi

Ela tinha acabado de terminar um quase noivado, estava recomeçando a notar a presença das pessoas e ia começar a trabalhar em um novo escritório. Ele notou que ela estava disposta a conhecer gente nova e se aproximou. Ele era bem mais velho, quase o dobro da idade dela, e um dos mais antigos na área. Ela aceitou o sorriso-convite e eles começaram a sair juntos.

Eles riam, conversavam, iam ao cinema, jantavam, sempre os dois, sempre só os dois. Ela achava a situação bastante confortável, muito leve, sem gente se intrometendo e sem as formalidades de um compromisso mais sério.

Passaram quase um ano sem dar nome ao relacionamento que tinham, até que ele disse que não aguentava mais o segredo e insistiu para formalizem tudo. A festa de final de ano da empresa era a data limite para ela se decidir.

Ela estava muito bem com o que tinham até então e receosa de entrar em outro compromisso, mas acabou cedendo. Durante a festa ficaram juntos e todos no escritório puderam confirmar o papo de corredor que rolava há tempos.

Alguns dias depois da festa ela recebeu um e-mail anônimo, fotos dele abraçado com uma mulher grávida, os dois com alianças de casamento nas mãos. Ela nem conseguia pensar direito quando ligou e pediu para ele vir até a casa dela.

Ele chegou, ela não disse nada, apenas mostrou as fotos e ele começou a falar. Disse que eram fotos antigas, de sua ex-mulher, que não tinha filhos, que ela havia perdido o bebê e que essas fotos certamente haviam sido enviadas por uma pessoa invejosa. Ela ouviu tudo sem interromper e sem derramar uma lágrima. Quando ele acabou ela apenas pediu que ele fosse embora, e que não se preocupasse em devolver a camisa que ela tinha dado de presente de Natal, já que ela pode ver nas fotos que ela tinha servido muito bem.

Não era outro

Era verão, início de ano e também dele no escritório novo. Os locais receberam muito bem o recém chegado e entre eles estava ela, que o recebeu um pouco melhor que os outros.

Já no segundo dia de trabalho seu novo time preparou um happy hour para ele conhecer todo mundo, e ela, mesmo sem ser da mesma equipe, também foi convidada.

Ao chegar no bar, a cada minuto mais cadeiras se juntavam à mesa, que pelo meio da noite estava lotada. Ele era um homem atraente e por isso mesmo atraiu muita gente para o bar, em especial as mulheres. Com o passar das horas as cadeiras foram indo embora, já que ele não parecia dar muita bola para nenhuma delas, mas ela ficou ali. Ficou ali até que a última cadeira pagou sua conta e sumiu naquela noite de calor, deixando o ar livre para os dois se entenderem.

Eles se entenderam, naquela noite mesmo. E se entenderam muito bem, naquela semana inteira, aquela primeira semana intensa que ele vivia. Eles eram discretos e praticamente ninguém, a não ser a última cadeira a ir embora, sabia que eles estavam passando algumas horas juntos.

Depois de algumas semanas o silêncio começou a chegar, ela já não dava tanta atenção a ele, ele já não percebia mais a presença dela. Até que certo dia ela avisou a todos que estava deixando a empresa e partiu naquela sexta-feira mesmo.

Ele não teve mais notícias dela por algum tempo, até que ela foi a sua casa. Ela carregava um bebê nos braços e antes que ele pudesse dizer qualquer palavra foi logo afirmando que o filho era dele e que se duvidasse que fizesse um teste de DNA. Ele ficou zonzo, achou que ia desmaiar, pensou que ela era uma louca, depois fez algumas contas mentais e entendeu que fazia sentido, e fez um sinal para ela entrar.

Alguns dias depois uma amiga dela, que também conhecia ele, soube da história e ficou intrigada, tão intrigada que resolveu perguntar a ela qual foi o motivo de tanta demora para contar que ele era o pai. E ela, um pouco desorientada com a pergunta acabou confessando que antes da criança nascer ela achava que o pai era outro.

Nasce torto, vira lenha

Ele estava namorando e dizia que estava apaixonado, os mais antigos duvidavam, os mais novos nem ligavam.

Eles não moravam na mesma cidade e ele visitava ela com frequencia, mas quando não a visitava, ele saía com outra. Era sempre a mesma outra, uma outra que os mais antigos conheciam e os mais novos nem ligavam.

Ele sempre foi muito cauteloso, mas com essa outra ele se descuidou. Foi visto aqui, ali e em alguns outros lugares, e como eles não tinham qualquer outro motivo para serem vistos juntos, os mais antigos desconfiaram, os mais novos nem ligaram.

E foi em uma festa de mais antigos que ele se descuidou novamente. Algumas doses de vodka e ele acabou confirmando as suspeitas para duas amigas antigas. Falou da uma e da outra, enquanto abraçava as amigas com seus braços de polvo. Nesse momento ele resolveu pegar seu celular e tirar uma foto abraçado com as duas amigas, para simbolizar sua situação na vida, e estava tão distraído com seus tentáculos que nem notou que uma delas pegou o telefone e apertou o botão de compartilhar.

No dia seguinte aconteceu o que as amigas imaginavam, os mais novos descobriram, os mais antigos nem ligaram.

Pedindo para negar

Ele fazia o tipo amigo e sempre ficava por dentro da vida das novatas do escritório, se eram comprometidas, casadas, enroladas ou se estavam disponíveis. As do último grupo tinham grande chance de entrar para sua lista de interesse, e se entrassem ele se empenhava, e muito, para entrar na lista delas.

Com essa estratégia, ele saiu com várias mulheres do escritório. Acreditava que estava sendo discreto e que ninguém, com exceção delas, sabia.

Quando ela apareceu ele ficou muito, muito interessado mesmo, e logo no primeiro dia se aproximou. Descobriu que ela era amiga de algumas de suas conquistas anteriores e resolveu se prevenir. Estava tão desesperado que chegou até a pedir para algumas delas que  negassem qualquer envolvimento com ele, caso ela perguntasse alguma coisa.

Eles saíram. Durante o jantar, logo após pedir a sobremesa, ela começou a falar nomes de mulheres. De vez em quando fazia uma pausa para lembrar o próximo nome, e assim ela foi enumerando, uma a uma, as conquistas dele. Ele abriu aquele sorriso culpado tentando negar tudo, mas não adiantou. O que ele não imaginava é que nem todas as mulheres com quem ele saiu eram discretas, e que nem todas levavam ele tão a sério assim.

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